“A Renovação da Esquerda” (por Manuel Pires da Rocha)

Como eu não diria melhor, aqui fica um excelente texto de Manuel Pires da Rocha sobre um tema que vai saltar para a agenda mediática de modo a tentar mistificar as estrondosas derrotas de alguns….

“No rescaldo das eleições os comentários vaticinam: é preciso repensar a Esquerda. Não tarda que a opinião se transforme em convicção generalizada, dogma que dispensa análise e explicação detalhada. Os ideólogos da Direita e os inquietados da Esquerda hão-de mesmo constituir um Bloco Geral de convergência. “É preciso repensar a Esquerda poderá vir a ser tema de conferências, de congressos, de artigos de semanário daqueles de encher o olho… de ciscos.

Pois a mim parece-me que não é preciso repensar nada. Tratar-se-á, quanto muito, de chamar os bois pelos nomes. Dá-se de barato, por exemplo, que o PS é um partido “de esquerda”. Poderia sê-lo mas não é. Poderia sê-lo se se baseasse em grande parte da sua base social de apoio – trabalhadores, reformados que já foram trabalhadores, jovem que hão-de ser trabalhadores, desempregados que, tão cedo, não vão conseguir ser trabalhadores – para construir um pensamento político de valorização do trabalho e lançamento de uma sociedade socialista. Mas o PS não põe os seus militantes a reflectir – limita-se a envolvê-los num fanatismo quase clubista, quase acéfalo, sempre em torno de um “líder”. PS2011 deu lugar a um patético Sócrates2011 que se esfumou na noite de 5 de Junho. De orfandade em orfandade o PS tem adiado o partido de esquerda que só existiu em intenção, nunca em acção. Poderá ser partido de esquerda aquele que converte o funcionamento democrático num sistema de “lideranças fortes”? Não pode. Ou aquele que desvaloriza o valor do trabalho em prol da flexibilização do mercado de trabalho, da precariedade, do ataque aos direitos, por si insultados de “privilégios”? Nem pensar. Ou o que destitui o Estado da propriedade das alavancas essenciais do funcionamento da economia? Cruzes credo! Aquele que só se lembra do Estado Social enquanto PS em campanha eleitoral quando, enquanto governo, foi o PS do extermínio desse mesmo Estado Social (na saúde, na educação, na segurança social)? Vergonha! Ou o PS que desvaloriza, desestabiliza, destrói o valor social do trabalho ao mesmo tempo que promove a corrupção, o lucro especulativo, a exploração? Também não.

O PS é, desde há 36 anos, o maior e mais seguro aliado do capital internacional e do imperialismo mais agressivo. A lógica da “alternância democrática” favorece-o. Não tarda, num país vitimado por más governações sucessivas, que os agora vencedores – PSD e CDS – caiam em desgraça, logo que o povo dê conta de que as promessas de “mudança” não passam de um engodo para papalvos (e o eleitorado tem grande reputação de papalvice) fortemente condicionados por uma ofensiva ideológica tão perversa como eficaz. E aí, o PS aparecerá de novo, com os Assises no lugar dos Sócrates e a restante corte dos Medinas, dos Santos Silvas, dos Capoulas, dos Silvas Pereiras (que nojo!), dos Amados, dos Albertos Martins cheios de currículo, dos Gagos trauliteiros.

Repensar a Esquerda? Não me parece ser uma prioridade. As relações sociais permanecem no mesmo pé que sempre foi o seu – os exploradores no lugar de exploradores, os explorados na condição de explorados. O que – isso sim – me parece urgente é não querer curar aquilo que não tem remédio: o PS, entre Sócrates e Mário Soares nunca foi mais do que aquilo que é: um partido de direita (quando no poder) com um palavreado de quase-esquerda (quando apeado do poder).

Portugal talvez precisasse de um PS que fizesse jus ao nome que lhe deram em baptismo. Ou não. O melhor será, talvez, deixar de o imaginar de Esquerda e deixá-lo estar onde tem escolhido estar – na Direita mais agressiva e com mais ódio ao “Estado Social” que jura defender. E, nesse caso, paz à sua alma.”

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